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Análise: CD Mais – Os Arrais

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Não são equívocos de julgamento da minha parte, ou uma necessidade de constar, mas é triste ver que o mercado gospel veio adotando uma filosofia corporativista bem bonita, e que virou um lamação de artistas mascarados. Que cantam por conveniência, que se agarraram a louvores com sentenças vazias e que gostam de chamar atenção da mídia com essa dubiedade, girando sem sair do lugar. O que me faz frear com relação a essas pessoas, é que elas têm essa necessidade de vender algo que não conseguem passar com sinceridade, ou demonstrar o próprio domínio de seu trabalho. Com “feições” exageradas, introjetam muita teologia rasa em suas músicas, formada para adequar ao que outros acreditam ser um genuíno “artista” gospel (um asco).

Mas como existe justiça divina pra nos mostrar que nem tudo está perdido, eis que surge Os Arrais, com osegundo trabalho autoral dos irmãos André e Tiago Arrais, lançado pela Sony Music, intitulado “Mais”.Com um repertório de dez faixas, o álbum foi produzido em Nashville, TN, nos EUA pelo cantor e compositor Andy Gullahorn, contando com participação de excelentes músicos como Stephen Mason, Jeff Taylor, dentre outros. As canções apresentam forte acompanhamento de violão e cordas (Faixa “21”), canção na forma ternária (“Oração”, “Mais”), quaternária (“Herança”), com predominância de violões, cajóns e leves arranjos de cordas (faixa “Esperança”, “17 de Janeiro”). As músicas “Não fale” e “A Voz” contam com a participação de Daniela Araújo, que alternam entre melodia e dueto, com forte presença de guitarra, contendo também violino.

Letras com poética incrível, extremamente articuladas, metáforas brilhantes e devaneios líricos suficientes para mandar um movimento retomar as suas raízes, sem soar orgânico. Nas canções, a poesia não é um despropósito, como na faixa “A Voz” que nos faz perceber que o reino não é o que nós esperávamos – aquela intervenção deslumbrante e dramática de uma glória irresistível, e sim “a voz que fala ao coração”. Inclusive, apesar das canções terem tratado da temática de que somos “mais” em Cristo (Romanos 8:37), de uma forma bem sutil eu percebo que, aparentemente as faixas do álbum remetem a uma vida peregrina cristã, baseada no livro de Hebreus 11:13,14:

  • “Que o caminho será escuro” (17 de Janeiro);
  • “E eu quis morrer na batalha ao lutar pelo reino até o fim. Mas fui convocado a cantar das vitórias e guerras que nunca vi. Me reduziria ao pó de onde vim” (Rojões);
  • “Em oração eu trilho o caminho que Jesus abriu […] E pela fé caminho até avistar o autor da minha fé” (Oração);
  • “Te sigo aonde for  […] Eu fui encontrado” (Mais);
  • “Como um refugiado deixando seu país, fugindo pela noite” (Esperança);
  • “Em terras longínquas e mares distantes, a luz ressurgirá” (A voz).

Expondo nas músicas um peregrino que não se satisfaz com nada menos do que Deus, que não se desvia do alvo, e se torna aquilo que quer alcançar, orando constantemente, numa jornada em direção ao céu. Até as referências aqui tornam um gancho empolgante, como por exemplo, na última faixa do disco “Saudade”, que na verdade é um hino da Harpa Cristã, “O Exilado”, do autor H. Maxwell Wright. Ao leve som dos violões, que tem marcado a sonoridade do CD inteiro, aborda as lutas de uma vida peregrina, que caminha para uma nova vida, apresentando um contraponto entre as vozes (quando outra voz canta se opondo a uma voz principal), sendo o que há de mais diferente em todo trabalho.

“Os Arrais” resolveram reciclar uma nova vertente nas suas composições, e acabaram sucumbindo o mau gosto das sentenças vazias que vieram transbordando no mercado gospel atual. O álbum, lançado no mês de maio, rapidamente alcançou o topo no chart de álbuns mais vendidos no Brasil, da loja iTunes, liderando em menos de 24 horas após o lançamento. É satisfatório, pois não são vendas cegas. Estão nadando contra a corrente e não usando a mesma fórmula de seus contemporâneos. Que não cai nos ares do pedantismo. Que está sendo construído mais ‘’passo a passo’’ do que na vontade de “quanto mais rápido melhor”. No disco, se percebe que existe uma maturação para as composições. É de fácil apreço.

Não nos percamos em teologizações abstratas, em filosofias vagas ou em jargões falsamente piedosos, que nos granjeia, comparativamente, poucos benefícios. “Os Arrais” chegaram impulsionando um novo conceito de música evangélica, ou repaginando aquilo que deveria ser feito desde o começo: ligado inteira e exclusivamente às Escrituras. Pode parecer pretensioso, mas “graças a Deus por ‘Arrais’”, era o que eu pensava enquanto escutava pela primeira vez o CD.

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Colaboração (extraordinária): Renam Pablo

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Rodrigo Berto

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